A Mulher que se Perdeu de Si Mesma: Maternidade, Carreira e o Reencontro com a Própria Identidade
Por Renata Bersot – Psicóloga | Desenvolvimento Humano, Autoestima e Identidade Feminina
Introdução: quando cuidar de todos faz a mulher esquecer de cuidar de si
Muitas mulheres constroem suas vidas através do cuidado.
Cuidam dos filhos.
Cuidam da família.
Cuidam da carreira.
Cuidam da casa.
Cuidam das necessidades de todos ao redor.
Essa capacidade de cuidar é uma grande força feminina.
Porém, existe um risco silencioso: em meio a tantos papéis, algumas mulheres deixam de se perceber como indivíduos.
Elas continuam funcionando.
Continuam entregando.
Continuam sendo reconhecidas.
Mas, internamente, surge uma pergunta:
“Em que momento eu deixei de ser eu?”
Essa sensação é mais comum do que muitas imaginam.
Não significa falta de amor pela família ou arrependimento pelas escolhas feitas.
Significa que, ao longo da jornada, algumas partes da própria identidade foram ficando em segundo plano.
O reencontro consigo mesma não é abandonar os papéis que construiu.
É voltar a existir além deles.
A construção da identidade feminina através dos papéis
Desde cedo, muitas mulheres aprendem a associar valor pessoal à capacidade de cuidar e corresponder às expectativas.
Ser uma boa filha.
Uma boa mãe.
Uma boa esposa.
Uma boa profissional.
Uma boa líder.
Esses papéis podem trazer realização e significado.
O problema acontece quando eles ocupam todo o espaço da identidade.
A mulher deixa de pensar:
“Eu sou uma pessoa que também exerce esses papéis.”
E passa a pensar:
“Eu sou apenas esses papéis.”
Quando isso acontece, qualquer mudança nesses lugares pode gerar uma crise de identidade.
A maternidade: uma transformação profunda do eu
A maternidade é uma das experiências que mais transformam a identidade feminina.
A chegada de um filho envolve amor, conexão e significado.
Mas também envolve mudanças:
- O corpo se transforma.
- A rotina muda.
- As prioridades mudam.
- O tempo pessoal diminui.
- A identidade anterior precisa ser reorganizada.
Muitas mães passam anos colocando suas próprias necessidades em último lugar.
Com o tempo, podem surgir sentimentos contraditórios:
- Culpa por desejar tempo para si.
- Dificuldade em reconhecer seus próprios desejos.
- Sensação de estar desconectada da mulher que era antes.
É importante compreender:
Cuidar de si não diminui o amor pelos filhos.
Uma mulher que se reconecta consigo oferece uma presença mais inteira aos outros.
A mulher profissional e o peso da alta performance
Muitas mulheres também constroem uma forte identidade profissional.
Elas conquistam espaços, desenvolvem competências e assumem grandes responsabilidades.
Mas a alta performance pode trazer uma armadilha:
A mulher passa a ser valorizada principalmente pelo que entrega.
Ela se torna:
- A que resolve.
- A que suporta.
- A que organiza.
- A que não falha.
Com o tempo, pode surgir uma distância entre:
A mulher que ela demonstra ser.
E a mulher que ela sente ser.
A pergunta aparece:
“Eu estou vivendo de acordo com quem sou ou apenas cumprindo expectativas?”
A perda silenciosa dos desejos pessoais
Um dos sinais mais importantes de desconexão com a própria identidade é quando a pessoa já não sabe responder:
“O que você quer?”
Não porque não possui desejos.
Mas porque passou tanto tempo priorizando necessidades externas que perdeu o contato com suas próprias vontades.
Algumas mulheres percebem que:
- Não sabem mais o que gostam.
- Não sabem como querem se vestir.
- Não sabem quais sonhos ainda desejam realizar.
- Sentem culpa ao investir em si.
O reencontro começa com pequenas perguntas:
“O que me faz bem?”
“O que desperta minha energia?”
“O que eu gostaria de experimentar?”
A psicologia da identidade: somos seres em constante construção
O psicólogo Erik Erikson estudou as diferentes fases do desenvolvimento da identidade ao longo da vida.
Sua teoria demonstra que a construção do eu não termina na juventude.
Continuamos nos transformando através das experiências.
Isso significa que mudar de fase não representa perder quem fomos.
Representa integrar novas versões de nós mesmas.
A mulher madura não precisa escolher entre:
A mulher que foi.
E a mulher que se tornou.
Ela pode integrar ambas.
A culpa feminina de se escolher
Muitas mulheres têm dificuldade em priorizar a si mesmas porque associam autocuidado ao egoísmo.
Existe uma crença:
“Se eu pensar em mim, estou deixando alguém de lado.”
Mas existe uma diferença entre egoísmo e autocuidado.
Egoísmo:
Ignorar o impacto das próprias escolhas sobre os outros.
Autocuidado:
Reconhecer que você também é alguém que merece atenção e cuidado.
Uma mulher emocionalmente saudável não abandona os outros.
Ela deixa de se abandonar.
A imagem como reencontro com a identidade
A relação com a imagem frequentemente muda quando a mulher passa por grandes transições.
Após anos priorizando funções e responsabilidades, algumas mulheres olham para o espelho e sentem estranhamento.
Não porque perderam beleza.
Mas porque perderam conexão.
A transformação da imagem pode ser um caminho simbólico de retorno:
- Escolher roupas que representam quem ela é.
- Retomar cuidados pessoais.
- Experimentar novas possibilidades.
- Permitir-se ser vista novamente.
A pergunta deixa de ser:
“Como eu volto a ser quem eu era?”
E passa a ser:
“Como eu expresso quem eu sou agora?”
O reencontro com a própria voz
Muitas mulheres passam anos adaptando sua voz às necessidades dos outros.
Aprendem a evitar conflitos.
A agradar.
A suportar.
A se adaptar.
O reencontro com a identidade envolve recuperar a própria voz:
- Expressar opiniões.
- Estabelecer limites.
- Fazer escolhas.
- Reconhecer necessidades.
A autoestima cresce quando a pessoa percebe que sua existência tem valor independentemente da utilidade que oferece.
Caminhos práticos para reconstruir a identidade
1. Reserve espaços exclusivamente seus
Não como recompensa.
Como necessidade.
2. Relembre quem você era antes de tantos papéis
Quais sonhos existiam?
Quais características suas ficaram esquecidas?
3. Atualize sua imagem
Permita que sua aparência acompanhe sua fase atual.
4. Reaprenda a desejar
Pergunte:
“Se ninguém esperasse nada de mim, o que eu escolheria?”
5. Procure apoio quando necessário
Processos terapêuticos podem ajudar a compreender padrões, ressignificar histórias e construir novas possibilidades.
Conclusão: voltar para si é uma forma de renascimento
A mulher não desaparece quando assume novos papéis.
Mas, às vezes, ela precisa se reencontrar depois de anos colocando todos à frente.
O reencontro consigo mesma não é uma rejeição da história construída.
É uma homenagem a ela.
Porque a mulher que cuidou, construiu, amou e realizou também merece ser cuidada.
A pergunta final:
“Depois de tudo que você fez por todos, o que você deseja construir por você?”
Essa resposta pode ser o início de uma nova fase.
Referências
- Erikson, E. H. (1968). Identity: Youth and Crisis. Norton.
- Rogers, C. (1961). On Becoming a Person. Houghton Mifflin.
- Neff, K. (2011). Self-Compassion. HarperCollins.
- Gilligan, C. (1982). In a Different Voice. Harvard University Press.
- Seligman, M. E. P. (2011). Flourish. Free Press.
